Kleshas – as causas do sofrimento

À luz dos ensinamentos do Yoga, o individuo no caminho da sua autorealização deve reconhecer e trabalhar em si mesmo sobre aspectos que o impedem de reconhecer a sua real identidade (atman) e manifestar o seu caminho de realização (Dharma). Estes aspectos denominam-se Kleshas em sânscrito. São cinco, e podem ser entendidos e traduzidos como “venenos” pois são as causas do sofrimento individual.

AVIDYA – O primeiro dos 5 Kleshas, e origem dos outros. Significa ignorância no sentido do desconhecimento perante a realidade última de si mesmo. O oposto de Avidya é Vidya, significando Sabedoria, Verdade, Conhecimento na prática. Quando Avidya opera o indivíduo conduz a sua vida desde a experiência da separação, da dualidade eu/tu, procurando preencher os seus vazios com o exterior de acordo com a instabilidade dos seus estados interiores e a transitoriedade dos estímulos e factores no exterior.

A falta de disciplina e estudo sobre a mente e consequente investigação sobre si mesmo, faz com que haja a noção e experiência de um eu fazedor da ação versus “o outro”, deixando a individualidade ser confundida e identificar-se com toda a transitoriedade.

Aí, a ilusão (Maya) exerce influência sobre a conduta do indivíduo que actua baseado nos desígnios da sua mente, baseado na compulsividade e reação defesa/ataque.

ASMITA –  Significa ego, identidade relativa a crenças de “eu sou isto”. É a percepção individual limitada, exclusiva, alimentada por crenças fortemente acreditadas e projeções erróneas daquilo que na realidade somos. Devido ao desafio e dificuldade em reconhecer a existência do Ser, tendemos a nos identificar com tudo aquilo que o corpo e a mente apresentam: corpo, nome, género, profissão, status, crenças políticas, religiosas, culturais, sociais, atributos individuais de personalidade e experiências que vamos vivendo ao longo da vida.

Essa experiência de “eu” versus “não-eu”, gera fricção e assume-se de inúmeras formas ao longo da vida do indivíduo. Inevitavelmente, gera tensão e sofrimento, pois tudo aquilo com que nos identificamos e tendemos a querer segurar ou evitar, está sujeito à mudança, inclusive o corpo.

O trabalho sobre si mesmo, adentrando ao que não muda em meio de toda a transitoriedade, é assim fundamental para perceber a nossa própria realidade e gradualmente reconhecer e expor as inúmeras nuances do ego e dissolve-las à luz do trabalho interior.

RAGA – Significa apego, procura por satisfação e preenchimento do exterior. Raga pode assumir-se na forma de desejo por poder, amor, segurança, reconhecimento. É tudo o que nos atrai, nos distrai, e que usamos para proteger, validar e alimentar a nossa existência egóica que, ao não estar consciente da sua verdadeira natureza, procura por satisfação e distração no exterior.

Raga é a atração e procura por coisas, situações, pessoas, de forma a trazer satisfação e preenchimento a si mesmo. O desejo por experiências prazerosas no exterior originam ações inconscientes e ofuscam a clara visão. Quando não temos aquilo que desejamos, sofremos, e quando obtemos o que desejamos, ao não estarmos conscientes da sua transitoriedade, os sentimentos de prazer desvanecem rapidamente, e recomeçamos a procura por prazer de novo, ficando presos num ciclo sem fim.

DVESHA – significa aversão, aquilo que gera repúdio. Dvesha é uma reação emocional que condiciona, limita e influencia negativamente a percepção do indivíduo. É a repulsa perante pessoas, objectos, contextos e ideias. Está intimamente relacionada com o Klesha anterior (Raga). Enquanto que Raga enfoca a atração perante o que retorna prazer e satisfação, Dvesha trata do inverso, do que retorna repulsa e tendemos a repelir e a querer evitar ou fugir. São dois lados da mesma moeda.

Estas preferências de gostos e aversões do indivíduo são fruto das suas vivências e experiências do passado. As preferências acionam o julgamento, percepção dual, e alimentam a separação, sofrimento, ódio e até guerras. Experiências do passado de perda, frustração, sofrimento e desilusão e se mantêm por ser compreendidas, serão em certos contextos e ambientes acionadas no presente, e o indivíduo tenderá a querer evitar e até fugir das mesmas, desenvolvendo sentimentos de repulsa ou aversão, até mesmo ódio, na tentativa de negar a si mesmo o sucedido no passado e evitar sentir a mesma experiência. Nessa tentativa de fugir de si mesmo, tenderá ainda a criar e alimentar hábitos e padrões de distração, criando ainda mais tensão, sofrimentos, divisões e preconceitos duais em si mesmo.

A verdadeira natureza do individuo (atman) é não-dual, não discriminatória. Não faz julgamentos, logo não tem preferências. A transformação começa quando abrimos mão do apego às preferências através da meditação, tapas e svadhyaya.

ABHINIVESHA – significa medo da morte. Abhinivesha é o culminar da incorrecta identificação do ser verdadeiro com o corpo temporário(físico), as suas fórmulas de pensamento/crenças e mundo dos sentidos com que este interage. Consequentemente, isto leva ao medo da morte – ou seja, ao desaparecimento do “eu” que se acredita e vê separado da existência.

Esta identificação com o corpo-mente, junto com o apego a tudo aquilo que é acreditado ter de obter e/ou evitar (Raga e Dvesha) para lhe dar satisfação e assegurar a sua permanência, leva a temer o fim da própria existência com a dissolução do corpo físico. Consciente ou inconscientemente, o facto do indivíduo desconhecer a sua real identidade, leva-o a depositar uma intensa necessidade de “agarrar” a sua existência temporária, o que gera tensão, ansiedade desmedida, sofrimento.

Podemos sentir que a morte representa o fim da nossa capacidade de satisfazer os desejos e caprichos do corpo/mente e, ao pensar que deixaremos de existir, aumenta intensamente o apego à vida – onde há apego, há tensão. Onde há tensão, há peso. Onde há peso, há sofrimento.

Namaskar
Jorge Miguel Porfírio

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